Pesquisar este blog

26 março 2026

Ensaio Sobre a Cegueira

 

Assistir a Ensaio sobre a Cegueira (Blindness) é um daqueles exercícios que tiram a gente da zona de conforto. Baseado na obra-prima de José Saramago, o filme não tenta ser gentil. Ele te joga em uma situação limite onde a humanidade perde a visão e, consequentemente, as suas máscaras sociais. É um soco no estômago, mas do tipo que faz a gente pensar por dias.

Lançado em 2008, com direção do brasileiro Fernando Meirelles, o longa carrega uma nota 6.6 no IMDb. Pode parecer uma nota mediana, mas não se engane: o filme é polarizador justamente porque é cru. Com um elenco de peso liderado por Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal e Alice Braga, a trama explora o colapso de uma civilização atingida por uma "treva branca" inexplicável.

Como começa a trama de Ensaio sobre a Cegueira?

A história não perde tempo com explicações científicas, e isso é o que eu acho mais interessante. Um homem fica cego no trânsito, mas em vez de escuridão, ele vê apenas um branco leitoso. Rapidamente, essa "cegueira branca" se torna uma epidemia. O governo, em uma tentativa desesperada e inútil de contenção, decide isolar os primeiros infectados em um hospital psiquiátrico abandonado.

Acompanhamos a Mulher do Médico (Julianne Moore), que, por algum motivo, é a única que mantém a visão, mas finge estar cega para acompanhar o marido (Mark Ruffalo) no isolamento. Ali dentro, o cenário é de guerra: falta comida, falta higiene e sobra medo. O filme foca muito na degradação das relações humanas quando o instinto de sobrevivência fala mais alto que a moral.

Quem está por trás dessa produção internacional?

O que me chama a atenção é como essa produção conseguiu ser global sem perder a alma. O diretor Fernando Meirelles, vindo do sucesso de Cidade de Deus, trouxe uma estética muito específica. Ele usa o excesso de luz e o desfoque para que nós, espectadores, também nos sintamos um pouco "cegos" ou perdidos naquela brancura.

As locações também dão um tom realista e meio atemporal. Grande parte do filme foi rodada em São Paulo, usando o Edifício Copan e o Viaduto do Chá como cenários de uma metrópole em colapso. Outras cenas foram filmadas em Toronto e Montevidéu. Ver São Paulo servindo de palco para esse caos traz uma proximidade estranha e desconfortável para quem conhece a cidade.

Quais são as melhores curiosidades sobre o filme?

Existem alguns detalhes de bastidores que mostram o nível de dedicação da equipe. Meirelles e o elenco realmente queriam entender o que é não enxergar.

  • Laboratório de cegueira: Antes das filmagens, os atores passaram por workshops onde ficavam vendados por horas para aguçar os outros sentidos e entender a desorientação espacial.

  • O "Ok" de Saramago: O autor José Saramago era famosamente rígido com adaptações. Ele só cedeu os direitos após Meirelles garantir que o filme focaria na "desintegração social" e não em um filme de terror convencional.

  • Figuração de peso: Muitos figurantes nas cenas de isolamento eram, de fato, pessoas com deficiência visual, o que trouxe uma camada de autenticidade para a movimentação das massas no filme.

Vale a pena assistir ou ler o livro antes?

Minha opinião de quem gosta de um cinema mais direto: o filme é excelente como obra isolada. Ele consegue traduzir visualmente o que Saramago descreveu com pontuação caótica no papel. A crítica que faço é sobre o ritmo na metade final; o ambiente do hospital é tão opressor que pode cansar quem busca apenas entretenimento leve.

Julianne Moore entrega uma das melhores atuações da carreira. Ela é o nosso guia moral e visual. O filme questiona: se ninguém está vendo, o que nos impede de sermos monstros? Ou melhor, o que nos mantém humanos? É uma obra essencial para quem curte distopias realistas e quer algo que vá além da ação superficial. Se você curte histórias sobre a resiliência (e a podridão) humana, precisa dar o play. Ler o livro antes mudará a sua percepção sobre o filme e eu recomendo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário