Às vezes, tudo o que separa um homem comum do caos total é um dia ruim no trânsito e um calor insuportável. Se você nunca sentiu vontade de abandonar o carro no meio de um engarrafamento e sair andando, talvez não more em uma metrópole. É exatamente assim que começa Um Dia de Fúria (o título original é Falling Down), um filme de 1993 que, mesmo décadas depois, ainda parece assustadoramente atual.
Vou te contar por que esse filme é um soco no estômago e como ele consegue fazer a gente se identificar com um cara que, claramente, perdeu o juízo.
O homem comum contra o sistema
O filme é dirigido por Joel Schumacher e nos apresenta William Foster, interpretado por um Michael Douglas no auge da carreira. Ele é um engenheiro desempregado que só quer chegar na festa de aniversário da filha. O problema é que o mundo parece ter decidido testar a paciência dele até o limite.
A nota no IMDb é 7.6, o que eu considero até baixo para o impacto que ele causa. Além de Douglas, o elenco tem o monstro Robert Duvall fazendo o papel do policial Prendergast, que está no seu último dia de trabalho antes da aposentadoria (um clichê clássico, mas que aqui funciona perfeitamente). A dinâmica entre os dois, mesmo sem se cruzarem na maior parte do tempo, é o que segura a tensão.
Los Angeles como um caldeirão de pressão
As locações de filmagem foram todas em Los Angeles, e a cidade é praticamente um personagem. Você consegue sentir o calor sufocante e o barulho das ruas através da tela. A trilha sonora, composta por James Newton Howard, ajuda a ditar esse ritmo de batida de coração acelerada, subindo o tom conforme a sanidade do protagonista vai descendo o ralo.
O filme não levou o Oscar, mas concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 1993. É o tipo de obra que não precisa de estatuetas para provar que é um clássico cult. Ele mexe com aquele sentimento de injustiça que todo mundo sente quando paga caro por um lanche que não se parece nada com o da foto no cardápio — uma das cenas mais icônicas do cinema, inclusive.
Curiosidades que você precisa saber
Para quem gosta de bastidores, tem uns detalhes que tornam o filme ainda mais interessante:
O visual de Douglas: Aquele corte de cabelo "escovinha" e os óculos foram ideia do próprio Michael Douglas para parecer um burocrata invisível da década de 50 perdido nos anos 90.
Ironia do destino: O filme foi filmado durante os tumultos de Los Angeles em 1992, o que trouxe um realismo tenso para as cenas de rua.
A escolha do diretor: Muita gente se surpreendeu com Schumacher na direção, já que ele era conhecido por filmes mais estilizados, mas ele entregou uma crueza impecável aqui.
Por que assistir Um Dia de Fúria hoje?
Diferente de filmes de ação genéricos, aqui não temos um herói ou um vilão de quadrinhos. Temos um cara que cansou de seguir as regras de um jogo que ele não consegue mais vencer. É um estudo sobre saúde mental, decadência urbana e a linha tênue entre a civilidade e a barbárie.
Sem entregar o final, o que posso dizer é que o fechamento é seco e direto, condizente com tudo o que foi construído. Se você busca um filme que te faça pensar "e se eu fizesse o mesmo?", este é o título certo.
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