Cara, se tem uma verdade absoluta no cinema nacional, é que o Guel Arraes sabe como transformar a nossa "brasilidade" em poesia visual. E quando a gente fala de Deus é Brasileiro, não é só um título de impacto; é uma viagem filosófica e muito bem-humorada pelo interior do nosso país. Senta aí, pega um café, e vamos bater um papo sobre esse clássico que todo mundo deveria ver pelo menos uma vez na vida.
O filme, lançado lá em 2003, traz uma premissa que só poderia funcionar aqui: Deus está cansado, precisando tirar umas férias, e decide que o Brasil é o lugar ideal para encontrar um substituto. O título original é exatamente esse, sem invencionices, e a direção fica nas mãos do mestre Guel Arraes, que já tinha nos dado o épico O Auto da Compadecida.
Do que se trata a história de Deus é Brasileiro?
A trama é baseada no conto O Santo que não Acreditava em Deus, do João Ubaldo Ribeiro. No filme, o "Criador" (interpretado por um Antônio Fagundes inspiradíssimo) desce à Terra e encontra Taoca (Wagner Moura), um pescador esperto, cheio de esquemas e que vive devendo pra meio mundo.
A dinâmica entre os dois é o que carrega o filme nas costas. Taoca vê em Deus a chance de resolver seus problemas financeiros, enquanto Deus vê em Taoca — e depois em Madá (Paloma Duarte) — a amostra grátis do que é ser brasileiro: um povo que sofre, mas que não perde a ginga e a esperança. É um road movie (filme de estrada) que atravessa o Nordeste, mostrando que, talvez, a divindade esteja justamente na nossa capacidade de improvisar.
Quem faz parte do elenco e onde foi gravado?
O elenco é um time de peso. Além do Fagundes e do Wagner Moura (que aqui já mostrava que seria um dos maiores da sua geração), temos a Paloma Duarte entregando uma atuação super pé no chão. O filme ainda conta com participações de Hugo Carvana e Stepan Nercessian.
As locações são um espetáculo à parte. Grande parte do filme foi rodada em Alagoas, especificamente no Parque Nacional do Catimbau (que fica na divisa com Pernambuco) e na região do Rio São Francisco. A fotografia aproveita demais a luz natural do sertão e as águas do "Velho Chico", dando uma sensação de imensidão que combina muito com o tema do filme.
Quais são as principais curiosidades e a nota no IMDb?
Se você liga para números, saiba que o filme segura uma nota 6.7 no IMDb. Pode parecer uma nota "justa", mas para o padrão de comédias dramáticas regionais, ele é muito bem avaliado.
Algumas curiosidades que pouca gente lembra:
Este foi um dos primeiros grandes sucessos do Wagner Moura no cinema, antes dele virar o Capitão Nascimento ou o Pablo Escobar.
O filme faz parte de uma trilogia informal do Guel Arraes sobre a cultura brasileira, junto com O Auto da Compadecida e Caramuru.
Muitos dos figurantes eram moradores locais das regiões de gravação, o que traz uma autenticidade absurda para as cenas de vilarejo.
O filme ainda vale a pena hoje em dia?
Na minha humilde opinião? Com certeza. A crítica da obra geralmente foca no equilíbrio entre o sagrado e o profano. O filme não tenta ser uma pregação religiosa; pelo contrário, ele humaniza Deus. O roteiro é ágil, as piadas não envelheceram mal e a trilha sonora é aquela delícia brasileira que a gente conhece.
O ponto alto é ver como o Brasil de 20 anos atrás ainda reflete muito do que somos hoje: um povo que espera por um milagre, mas que vai dando o seu jeitinho enquanto o milagre não vem. É um filme leve, mas que te deixa pensando sobre o que realmente importa no fim do dia. Se você quer entender um pouco mais da nossa alma (e dar umas risadas no processo), esse filme é obrigatório.
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