Sempre que alguém me pede uma recomendação de filme que fuja do óbvio, mas que entregue uma história sólida, acabo voltando para Encontrando Forrester (o título original é Finding Forrester). Assisti a esse longa pela primeira vez sem grandes expectativas e o que encontrei foi uma narrativa sobre mentoria e talento que não tenta te emocionar à força. O filme, lançado no final de 2000, traz uma sobriedade que falta em muitas produções do gênero.
A trama gira em torno de Jamal Wallace, um jovem do Bronx que é um gênio da escrita, mas mantém isso escondido para se enturmar. Ele acaba cruzando o caminho de William Forrester, um escritor recluso que ganhou o Pulitzer e sumiu do mapa. A dinâmica entre os dois é o ponto alto: nada de lições de moral baratas, apenas dois homens de gerações e realidades diferentes testando os limites um do outro através das palavras.
A direção de Gus Van Sant e o peso do elenco
Para entender por que o filme funciona, a gente precisa olhar para quem estava no comando. O diretor é Gus Van Sant, o mesmo cara que entregou Gênio Indomável. Dá para notar que ele tem uma mão boa para histórias de "mestre e aprendiz". Ele sabe filmar a cidade de um jeito que ela parece um personagem vivo.
O elenco é outro acerto. Sean Connery entrega uma de suas últimas grandes atuações antes de se aposentar, vivendo o Forrester com uma mistura de arrogância e fragilidade. Já o garoto, Rob Brown, foi uma descoberta e tanto. O elenco de apoio ainda tem nomes pesados como F. Murray Abraham (que faz o professor antagonista perfeito), Anna Paquin e até o rapper Busta Rhymes. Grande parte das filmagens aconteceu no Bronx e em Manhattan, mas algumas cenas de interior foram rodadas em Hamilton, no Canadá. Essa ambientação urbana traz uma crueza que ajuda a ancorar a história na realidade.
Números, prêmios e a sonoridade do filme
Se você é do tipo que olha as métricas antes de dar o play, o filme mantém uma nota respeitável de 7.3 no IMDb. Não é um filme que varreu o Oscar, mas teve seu reconhecimento, vencendo prêmios como o International Film Music Critics Award e o NAACP Image Award.
A trilha sonora merece um parágrafo à parte. Ela não é aquela orquestra épica que te avisa quando deve chorar. É composta basicamente por jazz, com muito Miles Davis e Bill Frisell. O uso do jazz combina perfeitamente com o ritmo da escrita e com o ambiente intelectual e, ao mesmo tempo, periférico em que a história se passa. É o tipo de música que você terminaria de ouvir tomando um café e pensando na vida.
Curiosidades que mudam a percepção da obra
Sempre gosto de saber o que rolou nos bastidores porque isso dá mais camadas ao filme. Por exemplo, o personagem de Sean Connery foi assumidamente inspirado em J.D. Salinger, o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, que também se tornou um recluso famoso.
Outro fato curioso é sobre Rob Brown. Ele não era ator. Ele foi para o teste de elenco esperando apenas conseguir um papel de figurante para pagar uma conta de celular de 300 dólares. Acabou desbancando profissionais e levando o papel principal. Além disso, a famosa cena em que Forrester digita furiosamente na sua máquina de escrever tem um detalhe técnico: quem está digitando ali, em close, não é o Connery, mas sim um digitador profissional, já que o ritmo precisava ser frenético para passar a ideia de genialidade.
Por que você deveria dar uma chance hoje
Encontrando Forrester é um filme sobre integridade. Ele não entrega grandes explosões ou reviravoltas mirabolantes, mas foca no processo de encontrar a própria voz. Para quem gosta de literatura ou simplesmente aprecia uma conversa inteligente entre personagens bem construídos, é um prato cheio.
O filme mostra que o talento pode te levar a lugares novos, mas é o caráter que decide se você permanece neles. É uma obra direta, sem frescuras e extremamente competente no que se propõe a fazer. Se você busca algo que respeite sua inteligência e ainda entregue uma boa ambientação de Nova York, essa é a escolha certa.
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