Lembro bem da primeira vez que assisti a Pi (ou π, se preferir o símbolo matemático). É um filme que não te deixa confortável, e essa é exatamente a intenção. Se você gosta de cinema que desafia o cérebro sem precisar de explosões a cada cinco minutos, esse trabalho de estreia do Darren Aronofsky é parada obrigatória.
Vou te contar por que esse longa de 1998 ainda é tão relevante e o que faz dele uma experiência única, sem te entregar o final, claro.
O caos e a ordem de Max Cohen
A história gira em torno de Max Cohen, um matemático brilhante e profundamente paranoico que vive em um apartamento entulhado de computadores em Nova York. O cara acredita em uma premissa simples, mas perigosa: tudo na natureza pode ser entendido através de números.
O título original é apenas o símbolo grego, e a trama acompanha a busca obsessiva de Max por um padrão numérico capaz de prever o mercado de ações. O problema é que, conforme ele chega perto de uma resposta, tanto grupos religiosos quanto corretores de Wall Street começam a persegui-lo. É um suspense psicológico seco, direto e que te deixa com a sensação de que as paredes estão fechando.
Direção, elenco e aquela nota no IMDB
O filme foi lançado oficialmente em 10 de julho de 1998 nos EUA. Foi o cartão de visitas do diretor Darren Aronofsky, que mais tarde faria sucessos como Réquiem para um Sonho e O Cisne Negro. Ele filmou tudo com um orçamento minúsculo — cerca de 60 mil dólares, o que é troco de pão para Hollywood.
No elenco, temos:
Sean Gullette como o protagonista Max Cohen (uma atuação física e intensa).
Mark Margolis como Sol Robeson (o mentor de Max).
Ben Shenkman como Lenny Meyer.
Atualmente, o filme sustenta uma nota 7.3 no IMDb, o que é bem alto para um filme experimental em preto e branco. Além disso, Aronofsky levou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Sundance, o que colocou seu nome definitivamente no mapa.
Uma trilha sonora que dita o ritmo cardíaco
Se tem algo que ajuda a construir a paranoia do Max, é a música. A trilha sonora é composta basicamente por nomes pesados da música eletrônica e do IDM (Intelligent Dance Music) dos anos 90. Tem Massive Attack, Aphex Twin, Orbital e Autechre.
O som é industrial, repetitivo e acelerado, casando perfeitamente com as crises de enxaqueca do protagonista. As locações de filmagem em Nova York, especificamente em áreas menos turísticas do Brooklyn e de Manhattan, reforçam essa estética urbana suja e claustrofóbica. O uso do preto e branco de alto contraste não foi frescura estética; serviu para esconder a falta de dinheiro e para criar uma atmosfera de pesadelo técnico.
Curiosidades que você precisa saber
Para um filme tão pequeno, os bastidores são fascinantes. Aqui estão alguns pontos que mostram o esforço de guerrilha da produção:
Orçamento colaborativo: Os 60 mil dólares foram arrecadados pedindo 100 dólares para cada amigo e familiar do diretor.
Filmagens ilegais: Muitas cenas nas ruas de Nova York foram gravadas sem permissão da prefeitura. Eles filmavam rápido e saíam correndo antes da polícia chegar.
O computador "Euclides": A máquina que Max usa no filme foi montada com sucatas e peças eletrônicas reais para parecer algo funcional e caótico.
A escolha do PB: Rodar em filme 16mm reverso (preto e branco) deu aquela granulação que faz o filme parecer um documento encontrado em um porão.
Se você curte teorias da conspiração, matemática aplicada ou apenas um bom suspense que não te subestima, Pi é o tipo de filme que você termina de ver e fica encarando a parede por alguns minutos, tentando processar o que acabou de acontecer.
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