Se você gosta de cinema que te faz pensar sem entregar tudo de bandeja, precisa encarar Advogado do Diabo (The Devil's Advocate). Eu não sou do tipo que se impressiona fácil com dramas carregados de emoção barata, mas esse filme de 1997, dirigido por Taylor Hackford, é um exercício de lógica, ego e poder que merece respeito.
Aqui, o foco não é te fazer chorar, é mostrar como o sistema funciona e como a ambição pode ser a corda que o sujeito usa para se enforcar.
O elenco de peso e a trama central
A história gira em torno de Kevin Lomax, interpretado por Keanu Reeves. Ele é um advogado de defesa de sucesso na Flórida que nunca perdeu um caso. O cara é bom, mas o que move ele não é a justiça, é a vitória. Essa característica chama a atenção de uma firma poderosa em Nova York, liderada pelo misterioso John Milton — vivido por um Al Pacino que domina cada cena em que aparece.
Ainda temos a Charlize Theron no papel de Mary Ann, a esposa de Lomax. Ela entrega uma atuação sólida, mostrando a decadência psicológica de quem entra em um mundo onde a ética é opcional. É um jogo de xadrez cinematográfico onde as peças são movidas pela vaidade.
Ficha técnica e reconhecimento do público
Se você se baseia em números antes de dar o play, o filme sustenta o hype. No IMDb, a nota gira em torno de 7.5, o que é um patamar bem alto para um suspense sobrenatural com pegada jurídica.
Embora não tenha sido um "papa-Oscars", o filme não passou em branco nas premiações:
Venceu o Saturn Award de Melhor Filme de Horror em 1998.
Recebeu diversas indicações pelo desempenho de Al Pacino, que entrega um dos monólogos mais icônicos da história do cinema moderno no terceiro ato.
Atmosfera, trilha sonora e locações
O filme foi rodado em locações reais que ajudam a vender a ideia de poder absoluto. Nova York é quase um personagem aqui. Passamos pela Quinta Avenida, pelo tribunal de Manhattan e por coberturas de luxo que fazem qualquer um questionar seus valores. Algumas cenas iniciais também foram gravadas na Flórida (Gainesville e Jacksonville).
A trilha sonora, composta por James Newton Howard, é pontual. Ela não tenta ditar o que você deve sentir, mas cria um clima de tensão constante, quase burocrático no início e grandioso conforme a máscara de John Milton vai caindo.
Curiosidades dos bastidores
Sempre gosto de saber o que aconteceu por trás das câmeras, e esse filme tem histórias interessantes:
Corte de salário: Keanu Reeves aceitou reduzir seu cachê em alguns milhões de dólares para que a produção tivesse orçamento suficiente para contratar Al Pacino. O cara sabia que o filme precisava daquele embate.
Recusas: Al Pacino recusou o papel de John Milton três vezes antes de aceitar. Ele achava que o personagem corria o risco de virar uma caricatura. Taylor Hackford teve que reescrever o roteiro para convencê-lo.
Preparação real: Charlize Theron passou meses visitando psicoterapeutas para entender como uma pessoa desenvolve esquizofrenia, visando dar realismo à sua personagem.
Vale a pena assistir hoje?
Sem dúvida. Advogado do Diabo envelheceu bem porque não depende de efeitos especiais mirabolantes, mas de diálogos afiados e atuações de primeira. É um filme sobre escolhas. Não espere sustos fáceis; espere um desconforto crescente e uma aula de como o carisma pode ser a ferramenta de manipulação mais perigosa que existe.
Se você busca um suspense jurídico que não te subestima, esse é o título. É direto, técnico na medida certa e tem um final que, garanto, vai te deixar pensando por um bom tempo.
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