My Best Friend's Birthday: O rascunho genial de Tarantino
Muita gente acha que a carreira do Quentin Tarantino começou com Cães de Aluguel em 1992. Mas, se você é um cara que curte cinema a fundo e gosta de entender como as mentes brilhantes funcionam antes da fama, precisa conhecer My Best Friend's Birthday.
Eu assisti a esse material — ou ao que sobrou dele — e a experiência é como ver uma banda de garagem antes de lotar estádios. É cru, é técnico, e tem todos os elementos que fariam o diretor famoso anos depois. Vou te contar o que você precisa saber sobre essa obra sem estragar a surpresa, porque, apesar da qualidade de imagem ruim, vale a conferida histórica.
O pontapé inicial de um estilo único
A história é simples e, sendo bem direto, é uma comédia de erros clássica. O filme segue um cara chamado Mickey, que acabou de levar um pé na bunda da namorada no dia do aniversário dele. O melhor amigo dele, Clarence (interpretado pelo próprio Tarantino), decide dar ao Mickey um aniversário inesquecível.
A intenção é boa, mas a execução é um desastre completo. Clarence tenta contratar uma garota de programa, arranja confusão com cafetões e a coisa escala rápido.
O que me chamou a atenção logo de cara não foi a atuação (que é bem amadora), mas o texto. Aquele diálogo rápido, cheio de referências pop e aquela "malandragem" típica dos personagens do Tarantino já estavam lá. Você percebe que o diretor já tinha a assinatura dele, só faltava o orçamento.
Ficha Técnica e o Incêndio que mudou tudo
Aqui é onde a história do filme fica mais interessante que o próprio roteiro. My Best Friend's Birthday nunca foi lançado oficialmente nos cinemas e você não vai achar ele na Netflix.
O motivo? Um incêndio no laboratório de revelação destruiu o último rolo do filme. O projeto original tinha cerca de 70 minutos, mas só restaram 36 minutos editados. O filme ficou incompleto, sem o final planejado.
Para quem gosta de dados concretos, aqui vai o resumo do que temos:
Título Original: My Best Friend's Birthday
Data de Lançamento (Estimada): 1987 (circuito de festivais e arquivos)
Direção: Quentin Tarantino
Elenco Principal: Quentin Tarantino (Clarence), Craig Hamann (Mickey), Crystal Connors (Misty).
Nota IMDb: Gira em torno de 5.6/10 (considerando que é um projeto estudantil/amador).
Premiações: Nenhuma relevante. O valor dele é puramente histórico.
A conexão direta com Amor à Queima-Roupa
Se você já assistiu a Amor à Queima-Roupa (True Romance, 1993), vai ter uma sensação de déjà vu assistindo a este curta. E não é coincidência.
Como o filme foi parcialmente destruído e Tarantino não conseguiu finalizá-lo como queria, ele não jogou a toalha. Ele pegou o roteiro, que escreveu junto com Craig Hamann, e reciclou as melhores ideias. O personagem Clarence, por exemplo, evoluiu para ser o protagonista de True Romance.
É interessante notar como ele reaproveitou situações inteiras. A cena do "o que você quer de aniversário?" e a dinâmica dos diálogos sobre cultura pop foram refinadas e vendidas depois como um roteiro profissional. Basicamente, esse filme foi o laboratório de testes para o que viria a ser o primeiro grande roteiro vendido pelo diretor.
Trilha Sonora, Locações e Curiosidades
Sendo um filme feito com orçamento de "troco de pão" (estimado em 5 mil dólares na época, que eles juntaram trabalhando numa locadora de vídeo), as locações são bem limitadas.
Locações: A filmagem rolou basicamente em Los Angeles, usando apartamentos dos próprios envolvidos, bares locais e ruas aleatórias. Nada de estúdio.
Trilha Sonora: Aqui já vemos o gosto musical do diretor. A trilha não é original, claro. Eles usaram músicas que gostavam, com destaque para Rockabilly e sucessos dos anos 70. Tem músicas como Right Now e Love Is. É aquela mistura que dita o ritmo frenético da edição.
Curiosidades Rápidas:
O filme é em preto e branco, o que ajuda a esconder a falta de iluminação profissional.
Dizem que Tarantino ficou tão frustrado com a perda do filme no incêndio que quase desistiu de dirigir. Ainda bem que ele mudou de ideia.
Roger Avary, que depois ajudou a escrever Pulp Fiction, trabalhou na produção desse filme também.
Veredito
Não espere uma obra-prima técnica. O áudio é ruim, a imagem é granulada e a montagem é confusa porque faltam pedaços. Mas, se você quer entender a mente de um dos maiores diretores de Hollywood antes da fama, My Best Friend's Birthday é material de estudo obrigatório. É o rascunho da genialidade.
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