Se você está cansado daquelas fórmulas prontas de Hollywood, precisa parar um pouco para entender o que é Ficção Americana (American Fiction). Eu assisti ao filme recentemente e, honestamente, é o tipo de história que te pega pelo braço e te obriga a pensar, mas sem ser chato ou palestrinha.
O filme estreou no final de 2023 lá fora e chegou com força no início de 2024 aqui no Brasil. O que temos aqui não é apenas mais uma comédia dramática, mas um soco no estômago de como o mercado consome cultura hoje em dia. Sem enrolação, vou te contar por que esse filme merece sua atenção.
Do que se trata American Fiction e quem está por trás
A direção ficou por conta do Cord Jefferson, que, inclusive, estreou na direção de longas com o pé direito. Ele adaptou o roteiro baseado no livro Erasure, de Percival Everett. A trama gira em torno de Thelonious "Monk" Ellison, um escritor acadêmico que está frustrado porque seus livros não vendem. O motivo? Eles não são "negros o suficiente" para o mercado editorial.
Em um momento de puro deboche e raiva, ele escreve um livro cheio de clichês ofensivos sob um pseudônimo, só para provar um ponto. O problema é que o livro vira um sucesso absoluto. O título original, American Fiction, resume bem a ironia: é uma ficção dentro da ficção sobre como a América enxerga certas identidades.
Jeffrey Wright e um elenco que entrega tudo
Se tem uma coisa que me prendeu foi a atuação do Jeffrey Wright. O cara é gigante. Ele consegue passar aquela frustração silenciosa de quem é inteligente demais para o ambiente onde está metido. Ele não está sozinho nessa; o elenco de apoio é de primeira:
Sterling K. Brown (que faz o irmão do Monk e está excelente);
Tracee Ellis Ross;
Erika Alexander.
A dinâmica familiar é o que impede o filme de ser apenas uma sátira ácida. Existe um peso ali, uma verdade nas relações que faz você se importar com aquelas pessoas, para além da piada intelectual. Atualmente, o filme sustenta uma nota 7.5 no IMDb, o que, para os padrões exigentes de hoje, é um sinal claro de qualidade.
A estética: Trilha sonora e as ruas de Boston
O clima do filme é muito bem construído. A trilha sonora, composta pela Laura Karpman, é toda trabalhada no Jazz. Combina perfeitamente com a personalidade do Monk e com o ritmo da narrativa, que é fluida, mas nunca apressada. É música de gente adulta, entende? Nada de barulho desnecessário.
Sobre as locações de filmagem, a produção se concentrou em Massachusetts, principalmente em Boston e na cidade costeira de Scituate. Aquelas casas de praia e o cinza de Boston dão um tom sóbrio e elegante que ajuda a ancorar a história na realidade, longe do brilho artificial de Los Angeles.
Sucesso no Oscar e o que você precisa saber antes de ver
Não foi só o público que gostou. Ficção Americana foi um dos queridinhos das premiações recentemente. O filme levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 2024, além de ter sido indicado em várias outras categorias, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para o Wright. No BAFTA e no Critics Choice, ele também marcou presença constante.
Uma curiosidade interessante é que o diretor Cord Jefferson nunca tinha dirigido um filme antes, mas já tinha um currículo pesado como roteirista de séries como Watchmen e The Good Place. Dá para ver que o cara sabe estruturar um texto. Outro ponto curioso: o livro que o Monk escreve por deboche no filme muda de nome algumas vezes, cada um mais absurdo que o outro, refletindo o desespero do mercado por algo "autêntico".
Se você busca um filme inteligente, com uma narrativa direta e que não te trata como idiota, Ficção Americana é a escolha certa. É um espelho bem incômodo da nossa sociedade, mas apresentado de um jeito que você não consegue parar de olhar.
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