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04 janeiro 2026

A Morte

 

A Morte (La commare secca): Análise do início de Bertolucci

Recentemente, parei para assistir a "A Morte" (título original: La commare secca). Se você curte cinema italiano ou quer entender onde grandes diretores começaram, esse filme é parada obrigatória. Não espere um blockbuster cheio de ação desenfreada. O que temos aqui é cinema de arte, cru e direto ao ponto.

Vou ser franco: o filme é uma peça de estudo sobre a verdade. Assisti com um olhar mais técnico, analisando como um garoto de 21 anos — sim, essa era a idade do diretor na época — conseguiu entregar uma obra tão madura. Abaixo, detalho o que você precisa saber antes de dar o play.



O enredo: Um crime, várias verdades

A premissa é simples, mas a execução é complexa. O corpo de uma prostituta é encontrado às margens do rio Tibre, em Roma. A partir daí, a polícia começa a interrogar os suspeitos que estavam no parque na noite do crime.

O filme não te entrega o assassino de bandeja. A narrativa funciona como um quebra-cabeça. Cada suspeito conta a sua versão daquela noite. Vemos a história se repetir sob diferentes perspectivas — um ladrão, um gigolô, soldados, garotos de rua. É o clássico estilo Rashomon (do Kurosawa), mas com uma pegada italiana bem suja e realista.

O foco aqui não é só descobrir "quem matou", mas entender a vida miserável daquelas pessoas na periferia romana. É uma investigação sociológica disfarçada de filme policial.

Ficha técnica e a sombra de Pasolini

Para entender La commare secca, você tem que olhar para quem estava por trás das câmeras. O filme marca a estreia de Bernardo Bertolucci na direção. Porém, a alma do filme tem outro dono: Pier Paolo Pasolini.

Pasolini escreveu o roteiro e você percebe a mão dele em cada diálogo e na escolha dos personagens marginais. Bertolucci, que tinha sido assistente de Pasolini em Accattone, pegou esse texto e deu a sua própria identidade visual.

  • Título Original: La commare secca

  • Ano de Lançamento: 1962

  • Diretor: Bernardo Bertolucci

  • Roteiro: Pier Paolo Pasolini e Sergio Citti

  • Elenco: A maioria são não-atores ou atores desconhecidos na época, como Francesco Rutan, Giancarlo De Rosa e Vincenzo Ciccora. Isso garante um realismo documental.

Atmosfera, locações e a nota técnica

O filme foi rodado inteiramente em Roma, mas esqueça o Coliseu ou a Fontana di Trevi. As locações são o parque Paolino e as margens lamacentas do Tibre. A fotografia em preto e branco reforça o clima árido e pessimista. Chove durante boa parte do filme, o que deixa tudo com um aspecto ainda mais pesado.

A trilha sonora fica por conta de Piero Piccioni, que mistura jazz com melodias mais clássicas, criando um contraste interessante com a pobreza mostrada na tela.

Sobre a recepção crítica:

  • Nota IMDb: O filme oscila geralmente entre 6.8 e 7.0. É uma nota sólida para um filme de estreia e de nicho.

  • Ritmo: A narrativa é fluida, mas exige atenção. Como eu disse, não é entretenimento vazio, é cinema para quem gosta de observar detalhes.

Curiosidades que você não sabia

Para fechar, separei alguns fatos que notei e pesquisei que dão mais peso à obra:

  1. O Significado do Título: "La commare secca" é uma expressão do dialeto romano que se refere à "Morte" (a Ceifadora). Literalmente, seria algo como "A madrinha seca".

  2. Diferenças de Estilo: Enquanto Pasolini preferia a câmera fixa e frontal, Bertolucci, mesmo jovem, já mostrava que gostava de mover a câmera. O filme tem travellings (movimentos de câmera) muito elegantes que destoam da sujeira do cenário.

  3. Bilheteria vs. Crítica: O filme não foi um estouro de bilheteria na época, mas serviu como cartão de visitas para Bertolucci, que depois faria obras gigantescas como O Último Imperador e O Último Tango em Paris.

Em resumo, "A Morte" é um filme frio, calculado e tecnicamente impressionante para um diretor estreante. Vale a pena assistir para ver o nascimento de um mestre do cinema.



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