Último Tango em Paris: Uma análise direta sobre o polêmico clássico
Se tem um filme que divide águas na história do cinema, esse filme é "Último Tango em Paris". Eu sempre tive um pé atrás com filmes que carregam muita fama de escândalo, porque muitas vezes o barulho é maior que a obra. Mas, ao assistir a este clássico, é inegável que existe algo ali tecnicamente e narrativamente que vai além das manchetes sensacionalistas.
Não estou aqui para fazer drama ou entrar em discursos emocionados. A ideia é bater um papo reto sobre a produção, o que ela entrega de fato e por que, décadas depois, a gente ainda está falando sobre ela. Se você curte cinema de verdade, precisa entender os detalhes técnicos e o contexto dessa obra.
Ficha técnica e o peso da direção
Para começar, vamos aos fatos. O filme foi lançado em 1972 (chegando em 1973 em muitos mercados), sob a batuta do diretor italiano Bernardo Bertolucci. O título original é Ultimo tango a Parigi.
O elenco traz dois pesos pesados, mas em momentos de carreira muito diferentes. De um lado, temos Marlon Brando, que dispensa apresentações e entrega uma atuação crua e improvisada. Do outro, a jovem Maria Schneider, que na época era praticamente desconhecida.
A nota no IMDb costuma flutuar, mas mantém uma média sólida em torno de 6.9 a 7.0. Pode parecer pouco para um "clássico", mas isso reflete bem a natureza polarizadora do filme: ou você entende a proposta existencialista do diretor, ou acha tudo uma loucura sem sentido.
A premissa: O anonimato como refúgio
A história, sem dar spoiler, gira em torno de um encontro casual. Um americano de meia-idade, Paul (Brando), e uma jovem parisiense, Jeanne (Schneider), se cruzam em um apartamento vazio disponível para aluguel.
O que acontece a seguir é um acordo tácito e estranho: eles iniciam uma relação puramente física naquele espaço, com uma regra clara imposta por Paul: sem nomes. Nada de passado, nada de profissão, nada de vida lá fora. O apartamento vira uma bolha.
Para mim, o ponto alto aqui não é o romance — porque não há romance —, mas a tentativa masculina de lidar com o luto e a confusão mental isolando-se do mundo. É uma narrativa sobre solidão e a busca desesperada por sentir alguma coisa, qualquer coisa, que não seja a dor da realidade.
Locações e a atmosfera sonora de Paris
Esqueça a "Cidade Luz" dos cartões-postais. A Paris retratada aqui é cinzenta, fria e úmida. As locações de filmagem são fundamentais para criar esse clima de isolamento.
Um destaque visual é a ponte de Bir-Hakeim. A estrutura de ferro e a simetria da ponte aparecem em cenas chaves, reforçando a sensação de aprisionamento dos personagens. O apartamento em si, quase sem móveis, funciona como um palco de teatro onde a realidade é suspensa.
E não dá para ignorar a trilha sonora. Composta pelo saxofonista argentino Gato Barbieri, a música é um jazz visceral. O saxofone rasgado dita o ritmo das cenas, servindo quase como a voz interior que o personagem de Brando tenta calar. É uma das trilhas mais marcantes dos anos 70 e casa perfeitamente com a proposta estética do Bertolucci.
Curiosidades e o que aconteceu nos bastidores
Agora, o que realmente mantém esse filme nas rodas de conversa são as curiosidades e, claro, as polêmicas.
A cena da manteiga: É impossível falar desse filme sem citar a infame cena. O que se sabe hoje, confirmado pelo próprio Bertolucci anos depois, é que a cena não foi totalmente combinada com Maria Schneider. A ideia do uso da manteiga foi uma improvisação de última hora entre Brando e o diretor. Schneider se sentiu humilhada, o que gerou um debate ético que dura até hoje sobre os limites da arte.
Brando e as "colas": Marlon Brando era conhecido por não gostar de decorar textos. Em várias cenas, ele espalhou cartões com as falas pelo cenário (colados nas paredes ou objetos) para ler enquanto atuava. Se você reparar bem, às vezes ele desvia o olhar de forma que parece "profunda", mas ele só estava lendo o roteiro mesmo.
Improvisação: Grande parte dos monólogos do personagem Paul sobre sua infância foram baseados nas próprias experiências de vida do Brando.
Censura: O filme foi proibido em diversos países, inclusive na Itália, onde cópias foram queimadas e Bertolucci perdeu seus direitos civis por um tempo.
Vale a pena assistir?
Se você busca entretenimento leve, passe longe. Agora, se o seu interesse é entender a evolução do cinema, a atuação de método e como a sétima arte lida com tabus, "Último Tango em Paris" é obrigatório. É um filme datado em alguns aspectos morais, mas tecnicamente poderoso.
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