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27 fevereiro 2026

O Alfaiate

 

Sentei para assistir O Alfaiate (The Outfit) sem esperar grandes explosões ou perseguições mirabolantes. O que encontrei foi algo muito mais refinado: um suspense de câmara, seco e direto, que se passa inteiramente dentro de uma alfaiataria em Chicago, nos anos 50.

Se você gosta de histórias onde a inteligência vence a força bruta, esse filme é um prato cheio. Vou te contar por que ele merece sua atenção, sem entregar nenhuma surpresa do roteiro.

A trama: Um jogo de xadrez em quatro paredes

A história gira em torno de Leonard Burling, interpretado pelo mestre Mark Rylance. Ele não se chama de alfaiate, mas de "cortador". É um imigrante inglês que treinou na famosa Savile Row, em Londres, e acabou montando sua loja em um bairro dominado pela máfia irlandesa.

O filme começa nos apresentando a rotina meticulosa de Leonard. Ele corta tecidos com uma precisão cirúrgica enquanto narra, de forma quase fria, o que é necessário para fazer um terno perfeito. O problema é que sua oficina serve de ponto de entrega para os gângsteres locais. Em uma noite de inverno, as coisas saem do controle e ele se vê preso em um jogo mortal de manipulação. O roteiro é do Graham Moore, que também dirige o filme e já levou um Oscar por O Jogo da Imitação. Dá para sentir esse peso na qualidade do texto.

Um elenco que sabe o que está fazendo

O peso de sustentar um filme que acontece em um único cenário cai todo nos atores, e aqui ninguém decepciona. Mark Rylance é o centro gravitacional; ele entrega uma atuação contida, mas dá para perceber que há muito mais sob a superfície daquele homem educado.

Ao lado dele, temos Zoey Deutch como Mable, a assistente que sonha com o mundo fora daquela loja, e Dylan O’Brien e Johnny Flynn como os filhos e capangas do chefão da máfia. A dinâmica entre eles é tensa. Você nunca sabe quem está mentindo ou quem será o próximo a puxar o gatilho. É o tipo de atuação que te prende pelo olhar, não pelo grito.

Ficha técnica e o que dizem por aí

Se você é do tipo que olha os números antes de dar o play, O Alfaiate tem uma recepção sólida. No IMDb, a nota gira em torno de 7.2, o que é excelente para um suspense desse gênero.

  • Título Original: The Outfit

  • Data de Lançamento: Fevereiro de 2022 (Festival de Berlim)

  • Direção: Graham Moore

  • Trilha Sonora: A música é assinada por Alexandre Desplat, um dos maiores nomes da atualidade. Ela é sutil, quase não aparece, mas cria um clima de desconforto constante.

  • Locações de Filmagem: Por incrível que pareça, o filme foi rodado inteiramente em Londres, dentro de estúdios, simulando a Chicago de 1956. A cenografia é tão boa que você realmente acredita que está naquela esquina gelada dos EUA.

  • Premiações: Embora não tenha sido um "papa-Oscars", o filme foi muito elogiado pela crítica especializada, recebendo indicações em premiações de cinema independente e de gênero, como o Saturn Awards.

Curiosidades que dão um toque especial

Uma coisa que achei interessante é que o Mark Rylance levou o papel muito a sério. Ele realmente aprendeu o básico do ofício de corte e costura com os mestres da Huntsman (uma alfaiataria real da Savile Row) para que seus movimentos em cena parecessem naturais. Nada de dublês de mãos aqui.

Outro detalhe é o título. The Outfit é um termo com duplo sentido em inglês: pode se referir a uma vestimenta completa (o terno), mas também era como a máfia de Chicago se autodenominava na época de Al Capone. É uma sacada inteligente que resume bem a dualidade do filme.

Se você está procurando um filme inteligente, com um ritmo que respeita a sua atenção e que entrega um desfecho satisfatório sem precisar de pirotecnia, O Alfaiate é a escolha certa para o seu próximo final de semana.



Suspeito Zero

 

Se você curte um suspense que foge do óbvio e não tem medo de mergulhar em uma atmosfera carregada, provavelmente já ouviu falar ou esbarrou em Suspeito Zero (Suspect Zero). Eu assisti a esse filme recentemente e ele me deixou pensando em como alguns thrillers dos anos 2000 conseguiram criar uma estética muito própria, seca e direta ao ponto.

Lançado em 2004, o longa é uma mistura de investigação policial com elementos psicológicos que beiram o bizarro. Não espere perseguições frenéticas de carro ou explosões; o ritmo aqui é outro, mais focado na mente distorcida dos personagens e em um mistério que parece sempre estar um passo à frente do protagonista.

A trama central e o clima do filme

A história gira em torno de Thomas Mackelway (interpretado pelo Aaron Eckhart), um agente do FBI que, após um erro no passado, acaba transferido para um escritório no Novo México. O cara é metódico, sério e está claramente tentando manter a sanidade. Tudo muda quando ele começa a investigar uma série de assassinatos estranhos onde as vítimas são, curiosamente, outros assassinos em série.

É aí que entra o conceito do "Suspeito Zero", um suposto criminoso que seria capaz de atravessar estados cometendo crimes sem deixar qualquer rastro ou padrão detectável. O roteiro te prende nesse jogo de gato e rato, mas o diferencial é que o "gato" aqui também é uma figura sombria. Sem dar spoilers, o que posso dizer é que o filme brinca muito com a ideia de percepção e com algo chamado "visão remota".

Elenco de peso e a direção de Merhige

O que me chamou a atenção logo de cara foi o elenco. Além do Eckhart, que entrega um protagonista sólido e sem muitos sorrisos, temos a Carrie-Anne Moss como a parceira de Mackelway, Fran Kulok. Ela traz um equilíbrio necessário para a trama.

Mas quem rouba a cena mesmo é o veterano Ben Kingsley. O cara interpreta Benjamin O'Ryan, um sujeito enigmático que está no centro de todo o mistério. A atuação dele é contida, mas passa uma tensão absurda.

A direção ficou nas mãos de E. Elias Merhige, o mesmo cara que fez A Sombra do Vampiro. Dá para notar o toque dele no visual do filme: é tudo meio cinzento, árido e com cortes de edição que tentam simular a confusão mental dos personagens. É um estilo que combina com a narrativa mais crua que ele propõe.

Trilha sonora, locações e recepção

Se tem algo que ajuda a ditar o tom desse filme é a trilha sonora. Ela foi composta por Clint Mansell, o gênio por trás das músicas de Réquiem para um Sonho. A música aqui não serve para te dar sustos, mas para criar um desconforto constante, uma sensação de que algo está errado o tempo todo.

As filmagens aconteceram principalmente no Novo México, usando locações como Albuquerque e Santa Fe. Esse cenário desértico e isolado ajuda muito a vender a ideia de solidão e de um lugar onde alguém poderia facilmente desaparecer.

Sobre a recepção, o filme é um daqueles casos de "ame ou odeie". No IMDb, a nota hoje gira em torno de 5.9. Não é uma nota altíssima, mas para quem gosta de suspenses mais densos e menos comerciais, ele entrega o que promete. Em termos de premiações, ele não foi um grande vencedor de Oscars, mas chegou a ser indicado ao Saturn Awards na categoria de Melhor Filme de Ação/Aventura/Suspense, o que faz sentido dado o nicho dele.

Curiosidades que valem o registro

Sempre gosto de saber o que rolou nos bastidores, e Suspeito Zero tem uns pontos interessantes:

  • Visão Remota: O conceito usado no filme não é pura ficção. O governo dos EUA realmente teve programas (como o Projeto Stargate) que estudavam a possibilidade de usar pessoas com supostas habilidades psíquicas para espionagem.

  • Preparação: Dizem que o diretor Merhige enviou aos atores pastas cheias de fotos reais de cenas de crimes para que eles entrassem no clima pesado da investigação.

  • O Título: A ideia do "Suspeito Zero" é um conceito teórico na criminologia sobre um assassino impossível de ser pego por não ter um modus operandi fixo.

Se você está procurando um filme para ver à noite, sem distrações, e gosta de uma narrativa mais cerebral e menos emotiva, vale dar o play. É um suspense honesto, bem produzido e com uma atmosfera que poucos filmes do gênero conseguem manter do início ao fim.